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COLUNA OPINIÃO

A passarela virou seção eleitoral?

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Antes de ser um feriado no calendário, o Carnaval é tido na sociedade quase como uma necessidade humana. Sua linhagem remonta às Antestérias gregas e às Saturnais romanas, festas de inversão onde a ordem do mundo era suspensa.
  • Por alguns dias, o escravo sentava-se à mesa do senhor e o rei tornava-se bobo. Era como uma “válvula de escape” para que a sociedade suportasse o peso das normas pelo resto do ano.
Com a ascensão do cristianismo, as festas pagãs ganharam novos significados. O Carnaval tornou-se o último suspiro antes da contenção. A própria palavra vem do latim carnis levare — “retirar a carne” — referência ao período que antecede a Quaresma.
Quando o Carnaval desembarca no Brasil, via Entrudo português, ele era violento e desorganizado: limões-de-cheiro, farinha e baldes de água cruzavam as ruas. Mas foi no encontro com os batuques de matriz africana e a organização das comunidades periféricas que ele ganhou sua alma atual. As manifestações de samba nasceram no “terreiro”, como uma forma de ocupar um espaço urbano que tentava marginalizar o corpo negro. Essa ocupação, porém, tinha um preço.
(Imagem: Heitor dos Prazeres)

O pedágio da “Brasilidade”

Até o início do século XX, o samba era caso de polícia no Brasil. Para as agremiações ganharem o direito de desfilar no asfalto sem serem presas por “vadiagem”, elas precisaram aceitar um pacto com o Estado.
Em 1934, o governo Vargas oficializou os desfiles sob uma condição burocrática: as escolas deveriam apresentar temas “educativos”.
  • A regra: Para receber verba, o desfile tinha que exaltar a História do Brasil ou as riquezas da pátria.
  • O resultado: A homenagem, portanto, nasceu como um pedágio, mas o feitiço virou contra o feiticeiro. Ao aceitar a regra, as escolas aprenderam a falar a língua do poder — e, depois, a distorcê-la.

O carnaval do “Nós contra Eles”

Nos anos 80, sob o traço de Oscar Niemeyer no recém-nascido Sambódromo, o grito era pelas Diretas Já.
Em 2020, a Acadêmicos do Vigário levou à Sapucaí um boneco do palhaço Bozo com a faixa presidencial fazendo o sinal de “arminha”, crítica ao então presidente Jair Bolsonaro.
(Foto: Twitter Reimont | Reprodução)
Naquele mesmo ano, a São Clemente escalou o humorista Marcelo Adnet para parodiar o político no topo de um carro alegórico cercado por fake news.
Já em 2024, vimos o Vai-Vai incendiar o debate ao retratar a estátua de Borba Gato em chamas e policiais com asas de demônio, uma crítica à violência estatal que gerou notas de repúdio e aplausos fervorosos.
Esses são apenas alguns momentos em que a avenida entregou muito mais do que fantasias e danças.


A polêmica de 2026

(Imagem: Ricardo Stuckert | PR)
Com uma multa pleiteada de R$ 9,65 milhõeso debate divide juristas e foliões:
  • De um lado: O argumento de que o samba foca na trajetória biográfica e simbólica (o retirante, o operário) e não na agenda de governo. Defendem que barrar o enredo seria censura préviaferindo a liberdade de expressão artística garantida pela Constituição e ignorando precedentes históricos de homenagens a figuras públicas.
  • Do outro: A tese de que, em ano eleitoral, um desfile financiado com verba da União e do Estado fere os princípios da impessoalidade e moralidade administrativa. Argumentam que a exaltação direta do presidente no Sambódromo desequilibra o pleito, funcionando como um jingle de 70 minutos financiado pelo próprio contribuinte.
Além do partido, a senadora e ex-ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, apresentou uma ação para tentar impedir o desfile da escola de Niterói, além de pedir a proibição de imagens do ex-presidente Jair Bolsonaro no desfile — e de emissoras transmitirem eventuais críticas a ele. A Justiça já extinguiu essa ação, sem analisar o mérito.
Talvez o grande ponto nem seja que o Carnaval virou palanque, porque sempre foi. A diferença é que agora o microfone está mais alto, as câmeras são globais e a polarização quase que não permite a neutralidade.


 

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